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Duzentos protótipos e a janela de um banheiro

O G-Shock foi projetado para sobreviver a uma queda de dez metros. O meu está há mais de trinta dias dentro da caixa, e é o único da coleção nessa situação.

5 de setembro de 20268 min

Abri o app procurando outra coisa e esbarrei nisto: o Casio G-Shock é o único relógio da minha lista principal com zero uso nos últimos trinta dias. Todos os outros treze saíram pelo menos uma vez. Ele não.

Achei engraçado porque é justamente o relógio que menos precisaria de cuidado. É o único que eu poderia deixar cair no chão do estacionamento sem sentir nada além de vergonha.

1981

A história começa com um engenheiro da Casio chamado Kikuo Ibe, que em 1981 entregou uma proposta interna: fazer um relógio de pulso que não quebrasse. Enunciar é fácil. Executar é que era o problema, porque um relógio de pulso é um instrumento delicado amarrado na parte do corpo que mais bate em coisa.

O time de desenvolvimento definiu uma meta que ficou conhecida como Triple 10: sobreviver a uma queda livre de dez metros, resistir a dez bar de pressão de água e ter dez anos de pilha.

A janela do terceiro andar

Não havia laboratório de queda. O método de teste era Ibe subir ao terceiro andar do prédio, abrir a janela do banheiro e soltar o protótipo no calçamento lá embaixo. Depois descer e ver o que tinha sobrado.

No primeiro ano foram mais de cem modelos de teste. Nenhum passou. A abordagem era a óbvia: reforçar, blindar, encher de proteção em volta do movimento. Quanto mais material se punha em volta, mais rígido o conjunto ficava, e mais o impacto chegava inteiro no que importava.

As crianças no parque

A virada não veio de uma mesa de projeto. Ibe estava num parque, viu crianças brincando com uma bola e reparou que o centro da bola quase não se mexe quando ela bate no chão. A borracha absorve tudo em volta.

A solução foi parar de blindar o módulo e passar a deixá-lo solto, suspenso dentro da caixa por poucos pontos de apoio, sem tocar nas paredes. O impacto passa a ser problema da caixa. O módulo balança e continua funcionando.

Estava resolvendo o problema errado: não era proteger o mecanismo, era desconectá-lo do golpe.

Dois anos e mais de duzentos protótipos depois, o projeto virou produto.

Abril de 1983

O DW-5000C-1A chegou às lojas em abril de 1983, por ¥ 11.400. No Japão, o interesse foi morno. Um relógio grosso, quadrado e digital, vendido pela promessa de aguentar porrada, não era exatamente o que o mercado japonês estava pedindo naquele momento.

Quem comprou a ideia foram os americanos. Em 1984 um comercial de televisão nos Estados Unidos colocou o relógio no lugar do disco de hóquei e mandou acertar com o taco. A demonstração fez pelo produto o que nenhuma ficha técnica faria, e o G-Shock virou item de skatista e de surfista bem antes de virar assunto de colecionador.

Por que o meu é um 5600

Em 1987 a Casio lançou o DW-5600, com a mesma silhueta quadrada do primeiro. Ele nunca saiu de linha. O módulo mudou várias vezes, a iluminação mudou, a resina mudou, o preço mudou. A forma continua a mesma coisa há quase quarenta anos.

É por isso que ele é o G-Shock que colecionador compra: não é o mais completo nem o mais resistente da marca hoje, é o que preserva o desenho original de um projeto que quase não aconteceu.

Ele não envelheceu

Há um número que eu não esperava quando fui atrás da história. O G-Shock levou quase trinta e quatro anos para expedir as primeiras cem milhões de unidades, marca que a Casio anunciou em agosto de 2017. Os trinta milhões seguintes levaram quatro anos: em outubro de 2021 o acumulado já estava em cento e trinta milhões.

Quer dizer que quase um terço de tudo que já saiu de fábrica saiu nos últimos anos da conta, e não nos primeiros. Um relógio desenhado em 1983 vende hoje num ritmo que nunca teve quando era novidade. A Casio vinha embarcando algo perto de sete milhões e meio de unidades por ano nesse intervalo, e o balanço mais recente com número de unidade, do trimestre encerrado em março de 2025, traz cerca de um milhão e seiscentos mil G-Shocks em três meses.

Depois de 2021 a marca não anunciou marco novo. Fazendo a conta com esse ritmo, o acumulado hoje deve estar perto de cento e sessenta milhões, mas isso é estimativa minha e não número da Casio.

Achei essa a coisa mais interessante da pesquisa toda. Um projeto que quase morreu na gaveta, que o Japão recebeu com indiferença em 1983, virou o objeto que mais gente no mundo tem no pulso, e continua crescendo. Ele não foi ficando datado. Ficou exatamente tão robusto quanto foi desenhado para ser, e o mundo é que veio até ele.

O que o meu registro diz

Cinco vírgula três por cento da minha rotação, e zero uso nos últimos trinta dias. Ele não está esquecido: 5,3% num universo de vinte e sete relógios é uso real, e ele já teve meses melhores. Só que agora está parado, e é o único parado.

A explicação honesta é que eu tenho uma vida de escritório. O relógio construído para sobreviver ao mundo é justamente o que menos encontra mundo pela frente na minha semana. Ele não foi projetado para o meu tipo de dia, e isso não é defeito dele.

Registrar uso serve para isso. Sem o registro eu diria que uso o G-Shock de vez em quando e seguiria acreditando nisso. Com o registro eu sei o número, e o número me obriga a olhar para o relógio e perguntar o que ele está fazendo ali.

A resposta veio mais tranquila do que eu esperava. Ele está parado há trinta dias e pode ficar sessenta. Uma hora vem uma viagem, um passeio de fim de semana, um programa raiz, um dia em que eu não faço ideia do que vai acontecer — e é ele que eu ponho no pulso. Não quebra, não para, não erra a hora, e funciona no escuro. Esse relógio não precisa de rotação. Precisa de ocasião, e ocasião sempre aparece.

Se você tem um G-Shock parado numa gaveta, ele está esperando o dia certo. E uma hora esse dia chega.

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O que o meu registro diz sobre este relógio
5,3%Da rotação total
0Usos nos últimos 30 dias
0Usos nos últimos 7 dias
8º de 27Posição na coleção

Casio G-Shock, ref. DW-5600RL-1JF. Dados do meu registro no Horalog, em 31 de agosto de 2026.

Isto sai de um registro de verdade.

O Horalog é o caderno de bordo que produziu todos os números destes artigos. Acesso aberto durante o beta, de graça.