O Junghans max bill não é um relógio Bauhaus
A escola fechou 28 anos antes do relógio existir. A história verdadeira envolve uma fábrica que já foi a maior do mundo, uma resistência antinazista e uma briga sobre o que é design.
Procure “relógio Bauhaus” e o Junghans max bill aparece na primeira linha, em qualquer lugar do mundo. A própria Junghans reforça isso: em 2019 lançou edições comemorando o centenário da escola.
A Bauhaus foi fundada em 1919, em Weimar, por Walter Gropius. Mudou para Dessau em 1925, para Berlim em 1932, e fechou em 1933 sob pressão do regime nazista. O primeiro max bill de pulso é de 1961.
São 28 anos de distância.
A história de onde o relógio vem mesmo passa por uma fábrica na Floresta Negra, por dois irmãos executados em Munique e por uma discussão sobre o que design deveria ser. Nada disso costuma aparecer junto.

Schramberg, 1861
Erhard Junghans monta a empresa em 15 de abril daquele ano, com o cunhado Jakob Zeller-Tobler. Nos primeiros anos a fábrica não fazia relógios. Fazia as peças para quem fazia. Os primeiros relógios com o nome Junghans aparecem em 1866, e pouco depois, com a morte do fundador, a viúva Luise assume.
A estrela de oito pontas da marca representa uma engrenagem. Está lá até hoje.
Em 1903 a Junghans era a maior fábrica de relógios do mundo, com mais de três mil funcionários em Schramberg e mais de três milhões de peças por ano. Nos anos 1960 chegou a cinco milhões anuais, com cerca de seis mil funcionários. Bill não desenhou para uma marca pequena.
Ela também não parou de inventar. Em 1990 lançou o Mega 1, primeiro relógio de pulso analógico do mundo com sincronização por rádio, desenhado por Hartmut Esslinger e a Frog Design. Um relógio que acertava a hora sozinho, quinze anos antes de isso virar banal.
A Bauhaus durou catorze anos
Catorze anos e três endereços. Gropius fundou a escola com uma ideia que hoje parece óbvia: acabar com a separação entre arte e artesanato, entre o artista e o operário. Oficina em vez de ateliê.
Quando ela fecha, em 1933, o corpo docente se espalha. Gropius e Mies van der Rohe vão para os Estados Unidos, Josef Albers vai para o Black Mountain College.
Max Bill tinha estudado ali dois anos, em Dessau, com Albers, Wassily Kandinsky, Paul Klee, László Moholy-Nagy e Oskar Schlemmer. Suíço, nascido em 1908. Absorveu o método na fonte, com quem o formulou.
De onde ele vem de verdade
Em fevereiro de 1943, Hans e Sophie Scholl foram executados pelo regime nazista. Eram estudantes em Munique e faziam parte da Rosa Branca, um grupo que distribuía panfletos contra a guerra e contra o regime. Presos, julgados e mortos em poucos dias.
A irmã deles, Inge, sobreviveu. Depois da guerra criou a Fundação Irmãos Scholl em memória dos dois, e é dessa fundação que nasce a HfG Ulm, a Escola Superior da Forma.
O planejamento começa em 1949, com Otl Aicher, que viria a ser marido de Inge, e o escritor Hans Werner Richter. O dinheiro veio de várias mãos: John McCloy, o Alto Comissário americano na Alemanha, um programa norueguês de ajuda à Europa, e o poder público alemão. As aulas começam em 1953.
Uma escola de design fundada com dinheiro americano, em memória de dois jovens mortos pelo regime, num país que tinha acabado de perder a guerra que eles tentaram impedir.

Max Bill foi o primeiro reitor, de 1953 a 1957, e projetou o campus no Oberer Kuhberg. Foi ele quem posicionou a HfG publicamente como continuação da Bauhaus, o que ajuda a explicar a confusão de rótulos até hoje. A escola tinha departamentos de Desenho Industrial, Comunicação Visual, Construção, Informação e Cinema.
A briga que Bill perdeu
Ele saiu em 1957 depois de perder uma discussão de fundo. Bill defendia o design como continuação da Bauhaus: o designer como artista, a forma como expressão. A geração mais nova da escola, com Otl Aicher, Tomás Maldonado e Hans Gugelot, queria design como disciplina científica, com método, ergonomia, semiótica e teoria de sistemas.
A segunda posição venceu. É de Ulm que vem a ideia de processo de design, de pesquisa com usuário, de sistema. É o vocabulário que hoje se usa sem pensar de onde saiu.
A escola durou quinze anos. Em novembro de 1968 o parlamento de Baden-Württemberg cortou a verba, citando conflitos internos e custo, e ela fechou no fim daquele ano apesar dos protestos dos alunos.
O que saiu de Ulm em quinze anos
Hans Gugelot, professor da HfG, desenhou com Dieter Rams o Braun SK4 em 1956, o rádio-vitrola de tampa transparente que ficou conhecido como “caixão da Branca de Neve”. É o objeto que funda a linguagem da Braun, e por tabela boa parte da linguagem do produto eletrônico que veio depois.
Otl Aicher assinou a identidade visual das Olimpíadas de Munique de 1972, incluindo os pictogramas: os bonequinhos de esporte que hoje estão em aeroporto e placa de rua no mundo inteiro. Criou também a tipografia Rotis.
Uma escola que fechou por falta de dinheiro em 1968 definiu como você lê um aeroporto.
O relógio
O primeiro trabalho de Bill para a Junghans foi um relógio de cozinha com timer, de 1956, feito junto com alunos de Ulm. Vendeu aos milhares, virou móvel de casa alemã e hoje está no acervo do MoMA. Os de parede vieram no fim da década.
O de pulso foi o último da fila, em 1961, em três versões de mostrador. O desenho é praticamente o mesmo até hoje, sessenta e cinco anos depois.
Repare no que ele não tem. Sem bezel, sem moldura em volta do mostrador, sem data, sem selo. Números, ponteiros e o mínimo de marcação. Para quem vem de relógio esportivo parece faltar alguma coisa, e é a doutrina de Ulm aplicada à risca: nada que não sirva para ler a hora.

A assinatura do Max Bill está gravada no fundo da caixa, junto da referência e do número de série, onde só quem usa vê. O mostrador não carrega autoria nenhuma.
2008
A Junghans industrial vai à falência, sob controle de um grupo de Hong Kong, e é comprada por um empresário da própria Schramberg com oitenta e cinco funcionários. Em 1903 eram mais de três mil.
O que sobrou como ativo principal da marca foi o desenho que um artista suíço fez em 1961.
Chamar de Bauhaus não chega a ser errado. O DNA é o mesmo e quem carregou esse DNA foi um aluno da casa. Mas o endereço é outro, e o endereço tem uma história melhor: uma fundação criada em memória de dois irmãos mortos, uma discussão sobre o que design deveria ser, e uma fábrica gigante que hoje sobrevive vendendo o objeto que um dos seus designers desenhou. Eu levei oito meses de registro para descobrir que uso ele mais do que imaginava.
Junghans max bill Automatic, ref. 27/3500.02. Dados do meu registro no Horalog, em agosto de 2026.
Este artigo é a versão longa de um post do @semeupulsofalasse.
Se você curte esse tipo de coisa, é lá que eu publico primeiro: @semeupulsofalasse.
Isto sai de um registro de verdade.
O Horalog é o caderno de bordo que produziu todos os números destes artigos. Acesso aberto durante o beta, de graça.