O relógio que eu mais uso é uma cópia
O Laco Augsburg 39 lidera a minha rotação com folga. Ele é a reprodução moderna de um instrumento que, no original, não pertencia a quem o usava.
O primeiro lugar da minha rotação não é o relógio mais caro que eu tenho, nem o mais bonito, nem o que eu mostraria primeiro para alguém que perguntasse da coleção. É um Laco Augsburg 39, e ele está em 10,7% dos dias registrados, à frente de vinte e seis outros.
Levei um tempo para aceitar esse número.
O que ele copia
O Augsburg é a reprodução do B-Uhr, o relógio de observação que a força aérea alemã usou na Segunda Guerra. Não era do piloto: era do navegador do bombardeiro, o sujeito debruçado sobre a mesa traçando rota e anotando horários no mapa. Tinha 55 mm de caixa, coroa enorme para operar de luva, gaiola de ferro doce contra o magnetismo da aeronave e parada de segundos, para acertar no segundo exato contra um sinal de hora.
Cinco fábricas produziram: A. Lange & Söhne, Wempe, a Laco, a Stowa e a IWC, esta a única suíça. E o detalhe que eu contei no post e que continua sendo o que mais me pega: o relógio era propriedade da Luftwaffe, não do navegador. Ele recebia antes de decolar e devolvia depois de pousar.
Pforzheim, 1925
A Laco nasceu como Lacher & Co. em Pforzheim, cidade que era a capital alemã da joalheria e da relojoaria. Junto com a Durowe, sua fabricante de movimentos, virou uma das casas grandes da cidade. A Stowa, outra das cinco, era vizinha ali mesmo — Walter Storz tinha fundado em Hornberg em 1927 e mudado para Pforzheim em 1935.
Em 23 de fevereiro de 1945 a cidade foi bombardeada. A fábrica da Stowa virou escombros. A Laco continuou fazendo relógio no meio do que sobrou, e os relógios de piloto voltaram ao catálogo só no começo dos anos 2000. A página de história da própria marca não dá o ano exato, o que já diz alguma coisa sobre o tamanho do intervalo.
O que o meu é, de verdade
Aqui a honestidade cobra o preço. O meu Augsburg tem 39 mm, não 55. Mostrador Typ A, com as horas de 1 a 12 num anel só e o triângulo às doze. Vidro de safira, fundo transparente, 5 ATM.
E dentro dele não bate um calibre alemão. Bate um Laco 2S, que é um Miyota 82S0 japonês. Um homenageador alemão de um instrumento alemão, com movimento japonês, montado em Pforzheim.
É a cópia de um relógio que ninguém podia ter, feita com uma peça que a história original não conhecia.
Isso não me incomoda tanto quanto eu esperava que incomodasse. O 82S0 é robusto, tem parada de segundos como o original tinha, e custa uma fração do que custaria um movimento de manufatura. A alternativa realista não era um Augsburg com calibre alemão por um preço parecido. Era não ter Augsburg nenhum.
Por que ele ganha
Passei meses achando que o líder da minha rotação seria o NOMOS ou o Junghans. São os relógios que eu escolheria para representar a coleção, e os dois estão logo atrás, com 8,9% e 8,5%.
O que o registro mostra é mais chato e mais verdadeiro do que isso. O Laco ganha porque não exige decisão. Mostrador preto, números brancos grandes, 39 mm que somem embaixo de qualquer manga, e a sensação de que se ele bater na quina de uma porta o problema é da porta. É o relógio que eu pego quando não estou pensando em relógio.
Os que eu mais admiro são os que eu escolho. Este é o que eu uso.
O que o registro diz
Dez vírgula sete por cento da rotação, primeiro lugar entre vinte e sete relógios. Dois usos nos últimos trinta dias, nenhum nos últimos sete, o que mostra que liderança acumulada não é a mesma coisa que uso recente.
Sem registrar, eu teria apostado errado sobre a minha própria coleção, e teria continuado apostando errado. Foi por isso que comecei a anotar.
Um instrumento que existia para não pertencer a ninguém virou, oitenta anos depois, o objeto mais meu que eu tenho. Não sei se isso é ironia ou apenas bom projeto.
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Laco Augsburg 39, ref. 861988. Dados do meu registro no Horalog, em 31 de agosto de 2026.
Isto sai de um registro de verdade.
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