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Tradição com modernidade

Um calibre suíço de corda manual com mais de cinquenta anos de estrada, dentro de vinte e uma gramas de titânio. O echo/neutra Rivanera, contado por dentro e por fora.

19 de setembro de 20268 min

Tradição e modernidade podem coexistir no mesmo relógio. De um lado, um movimento tradicional, suíço, de corda manual, com mais de cinquenta anos de estrada e fama de confiável. Do outro, uma caixa de titânio tão leve, vinte e uma gramas, que o relógio se integra ao pulso e some. Eu sabia do peso pela ficha antes de ele chegar e mesmo assim, no primeiro dia, tirei do pulso duas vezes para conferir se ainda estava lá.

O nome dele é Rivanera, e a marca é a echo/neutra.

Uma marca num vale

A echo/neutra é italiana, de 2018. Foi fundada por dois sócios que vieram de lados diferentes: Nicola Callegaro, designer, e Cristiano Quaglia, engenheiro aeroespacial. A sede fica em Averara, um vilarejo no Val Brembana, ao pé das Dolomitas, na província de Bérgamo.

Nos Alpes italianos o design, nos suíços a produção: os relógios são desenhados em Averara e montados na Suíça, com calibre suíço, o que lhes dá o “Swiss made” no mostrador. A primeira coleção da marca foi a Cortina 1956, de cara vintage, com nome de estação de esqui. O Rivanera é a outra ponta: dois anos de projeto, segundo a marca, para chegar num relógio de vestir que não parece nenhum outro relógio de vestir.

Sobre o nome, a marca não explica e eu não encontrei. Fica em aberto.

O Rivanera

É retangular, 27 por 40 milímetros, e tem 5,5 milímetros de espessura sem o vidro, 5,9 com ele. A caixa é de titânio grau 5, a liga com alumínio e vanádio que a aviação usa, jateada de grão fino, com as arestas polidas. É desse contraste que vem o efeito: de longe é fosco e discreto, de perto cada quina reflete uma linha de luz.

O mostrador tem índices aplicados de inspiração art déco, com facetas, e uma escala de minutos do mesmo período. Os ponteiros são finos. Não tem quase nada escrito. Os reviews de fora chamaram o conjunto de “neogótico minimalista”, o que é uma forma elegante de dizer que ele não tenta parecer um Tank nem parecer antigo.

Vidro de safira plano, 30 metros de estanqueidade, coroa de tirar e puxar.

O Rivanera une os extremos, e não só no relógio. A caixa retangular, os índices art déco e os ponteiros finos fazem dele um relógio de vestir; o titânio jateado e a pulseira de borracha preta, que vem na caixa junto com uma de couro cordovan verde, fazem dele um relógio de sábado. Eu uso os dois jeitos. Com o couro, vai para o jantar; com a borracha, vai para a rua, para a viagem, para o dia em que a camisa é uma camiseta. É a mesma união de tradição com modernidade que existe por dentro, só que no estilo.

O fundo é transparente. E é aí que mora a parte que eu mais gosto de contar.

O calibre de 1971

Dentro dele bate um ETA 7001, que nasceu como Peseux 7001.

A Peseux era uma fábrica de ébauches, os movimentos “em branco” que as marcas terminavam, fundada em 1923 por Charles Berner na cidade de Peseux, no cantão de Neuchâtel. A especialidade da casa eram movimentos pequenos e finos, ovais e tonneau, para relógios de senhora e de vestir. Em 1933 ela entrou no grupo que viria a ser a ETA, mas continuou operando com o próprio nome por décadas, até ser dissolvida como empresa em 1979.

O 7001 apareceu no início dos anos 70. É um calibre de corda manual com 23,3 milímetros de diâmetro e 2,5 milímetros de espessura, 17 rubis, 21.600 alternâncias por hora e 42 horas de reserva. Horas e minutos no centro, segundos pequenos às seis. Uma arquitetura tão simples que serviu de base para gerações de relógios finos.

Ele chegou na pior hora possível. Em 1971 o quartzo já estava no mercado e a década seguinte quase levou a indústria mecânica suíça inteira. O 7001 sobreviveu por ser exatamente o que era: barato de fabricar, fino, confiável e fácil de vestir com qualquer mostrador. Omega, Tissot, Longines, Mido, Blancpain, Oris, Bell & Ross usaram. Estima-se que mais de dois milhões tenham sido feitos, um número que as fontes repetem sem que ninguém consiga confirmar.

A ETA parou a produção por volta de 2004, retomou em 2011 e, desde então, o estoque foi minguando. Hoje o 7001 é um calibre que se encontra, não que se encomenda, e a La Joux-Perret lançou em 2023 o D100 com as mesmas medidas para ocupar o lugar dele. Ter um 7001 novo em 2025, num relógio lançado em dezembro de 2024, é ter um dos últimos.

Uma digressão que eu não sabia até escrever isto: a NOMOS usou o Peseux 7001 no Tangente de 1992 até 2005, e foi mexendo nele ao longo desses anos, parada de segundos, a ponte de três quartos de Glashütte, o freio de corda. Em 2005 ela passou a fabricar o calibre Alpha, que é, na descrição de quem estudou os dois, o 7001 com as modificações da NOMOS incorporadas. O Alpha do meu Orion Rose e o 7001 do Rivanera são parentes próximos. Dois relógios de vestir, o alemão e o italiano, com o mesmo avô suíço de 1971.

Microbrand, independente, ou os dois

Tem uma discussão que volta sempre: echo/neutra é microbrand ou independente? Eu acho que as duas palavras descrevem coisas diferentes e as duas cabem.

Microbrand diz respeito ao tamanho e ao modelo de negócio: uma equipe pequena, venda direta pelo site, sem rede de lojas, calibre de prateleira em vez de calibre próprio. A echo/neutra é isso. Independente diz respeito a quem manda: ninguém acima dos dois sócios, nenhum grupo, nenhum acionista definindo o catálogo. Também é isso.

O que muda na prática, para quem usa, é o que a marca escolhe fazer com essa liberdade. No Rivanera a escolha foi gastar o dinheiro onde se sente: titânio grau 5 em vez de aço, safira, um calibre suíço de verdade, acabamento que suporta lupa. E economizar onde não se sente: sem calibre próprio, sem loja, sem embalagem de vitrine. É uma conta que as marcas grandes fazem ao contrário.

O que o registro diz

Ele chegou em 19 de junho. Nos primeiros trinta e quatro dias, foi ao pulso em nove. Eu já tinha avisado no Reel de julho que era efeito de relógio novo, e era: até 8 de agosto, última data da minha planilha, ele tinha 15 registros em 200, 7,5% da rotação, oitavo entre vinte e sete relógios, praticamente empatado com o Cement Boy e com o TAG Formula 1. Contando só o período em que ele existiu na coleção, foi 27% dos meus dias. Nenhum outro chegou perto nesse intervalo.

Quatorze desses dias foram de trabalho, seis de lazer, seis de férias. É o relógio que eu ponho quando não quero pensar em relógio. Vinte e uma gramas ajudam.

Tradição por dentro. Modernidade por fora. Vinte e uma gramas no meio.

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O que o meu registro diz sobre este relógio
7,5%Da rotação total
8º de 27Posição na coleção
27%Dos dias desde que chegou
15 em 200Registros

echo/neutra Rivanera Gray. Dados da minha planilha de uso, de 19 de junho a 8 de agosto de 2026.

Isto sai de um registro de verdade.

O Horalog é o caderno de bordo que produziu todos os números destes artigos. Acesso aberto durante o beta, de graça.