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O Aquaracer antes do Aquaracer

Foi minha primeira compra no Chrono24, feita às cegas pela história — uma história que a própria Heuer quase não sobreviveu para contar. A saga da série 2000 passa pela crise do quartzo e pelo Senna, e termina viva no Aquaracer de hoje.

3 de outubro de 20265 min

Minha primeira compra no Chrono24 foi um relógio que hoje não está mais no meu pulso, e nem saiu de casa. Um TAG Heuer 2000 Professional, referência WK1212, segunda geração, quartzo, direto do Japão. Apesar de 35 mm ser um bom tamanho, com o bezel ele acaba parecendo pequeno demais no meu pulso: sobra aro, falta mostrador. Está na família como autêntico GADA, mas nos pulsos da patroa.

Foi um relógio comprado meio no escuro, pela história, e a história é melhor do que eu sabia na hora.

Um mergulhador para quem não mergulha

A Heuer era uma casa de cronógrafos. Relógio de mergulho entrou tarde e por motivo prático: Jack Heuer viu numa feira de artigos esportivos o quanto se vendia de relógio “de mergulho” para gente que nunca mergulhava, e resolveu entrar nesse mercado com uma linha robusta, no estilo Rolex, mas com movimento de quartzo. O primeiro foi a referência 844, de 1978, caixa de 42 mm feita na França pela Georges Monnin, mostrador com os números de 13 a 24 em vermelho. Essa família cresceu até passar de quarenta modelos, e foi ela que segurou a empresa nos anos da crise do quartzo. O nome, série 1000, só apareceu no catálogo de 1984, quando a linha seguinte já estava na vitrine.

A série 2000 veio em 1982, quatro anos depois do 844, para resolver o que a família dele não resolvia. Desenhada por Eddy Schöpfer, o mesmo que depois faria o S/el, tinha a caixa mais plana e mais elegante que o mergulhador de antes, alças retangulares em vez de curvas, pulseira nova e o bezel tratado como elemento de desenho, não só de função. A ideia era um relógio que aguentasse água e passasse por relógio de cidade. Era, sem que ninguém usasse a palavra, um GADA.

Seis promessas

Foi o primeiro modelo da marca a carregar as “seis características”, que os catálogos repetiriam por vinte anos: estanqueidade a 200 metros, coroa rosqueada, bezel giratório unidirecional, cristal de safira, marcadores luminosos e fecho de dupla segurança na pulseira. Nada disso era invenção da Heuer. O que era novo era vender o pacote inteiro, com nome, como argumento, num relógio de quartzo que custava uma fração de um Submariner.

O texto do mostrador, “Professional 200 Meters”, vem daí. Nos primeiros anos a palavra “Professional” só aparecia nessa linha, e é um dos detalhes que os colecionadores usam para saber se o mostrador é o original ou uma troca de assistência.

Heuer, TAG Heuer, mesma caixa

O relógio nasceu no pior momento da empresa. Em 1982, o mesmo ano do lançamento, Jack Heuer vendeu suas ações a um grupo liderado por Valentin Piaget, esmagado pela dívida da crise do quartzo mesmo com vendas boas. Em junho de 1985 a TAG, Techniques d’Avant Garde, o grupo de Akram Ojjeh que já bancava a McLaren na Fórmula 1, comprou a Heuer. Em 1º de janeiro de 1986 o nome virou TAG Heuer.

A série 2000 atravessou a mudança sem mudar. Os primeiros dizem “Heuer” no mostrador; os seguintes, “TAG Heuer”; a caixa, o movimento e a fábrica são os mesmos, e os dois hoje se vendem com prêmios diferentes por causa de uma palavra. Foi também o relógio que a nova dona usou para se apresentar: em 1986 veio a Formula 1 de plástico colorido, em 1987 o S/el, e em 1991 a campanha “Don’t crack under pressure”, com o Senna. Para quem cresceu no Brasil naquela década, a TAG Heuer é a marca do Senna antes de ser qualquer outra coisa, e a 2000 era o modelo de entrada da vitrine.

Quatro gerações

A linha ficou 22 anos em produção. A primeira geração, de 1982 a 1994, tinha o bezel de alumínio plano ou aquele de garras retangulares. Em 1995 veio a segunda, a do meu: bezel de doze lados com garras grandes, marcadores com moldura de metal e o “12” maior. Em 1998 a terceira dividiu a família em Classic, Exclusive e Sport. Em 2004 a quarta geração já saía do catálogo com outro nome no mostrador, “2000 Aquaracer”, com 300 metros no lugar dos 200 e os marcadores redondos de volta.

Sobre a referência: até 1992 os códigos tinham seis dígitos e os dois últimos diziam o tamanho (06 para 42 mm, 13 para 38, 15 para 32, 08 para 28). Depois vieram as letras: WE para a primeira geração da 2000, WK para a segunda, WN para a Exclusive. O meu WK1212 é o tamanho intermediário da segunda geração, com ETA de quartzo, safira e os 200 metros. Os anúncios divergem sobre o diâmetro: o meu dizia 35 mm, outros dizem 38 para a mesma referência, e um dono de um WK1211 mediu 33,5. Medi o meu: 35 mm só o bezel, 38 mm com a coroa — o que talvez explique a divergência entre os anúncios: um deles estava medindo uma coisa, o outro, outra.

O que ficou dele

Em 2005 a TAG Heuer aposentou todos os nomes numerados e o que era a série 2000 virou simplesmente Aquaracer. O nome sumiu; o desenho não. As alças retangulares do meu relógio continuam no catálogo de hoje, o Aquaracer Professional 300 de 2021 voltou ao bezel de doze lados da minha geração de propósito, e os 200 metros viraram 300. O resto das seis promessas continua igual.

Comprei em janeiro de 2026, e o relógio só chegou um mês depois. Foi a compra que me ensinou a medir antes de clicar. O tamanho no anúncio não conta o que um bezel faz com o mostrador, e um relógio que fica bonito na foto de 1995 pode ficar perdido num pulso de 2026.

O TAG não saiu de casa, e essa é a parte boa da história.

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O que o meu registro diz sobre este relógio
5Usos registrados
2,5%Da rotação total
LazerOcasião principal
Fevereiro de 2026Na coleção desde

TAG Heuer 2000 Professional, ref. WK1212. Dados do meu registro no Horalog, em setembro de 2026.

Isto sai de um registro de verdade.

O Horalog é o caderno de bordo que produziu todos os números destes artigos. Acesso aberto durante o beta, de graça.