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Glashütte, a cidade que quebrou três vezes

Comprei um NOMOS por causa do mostrador. Fui ler o que estava escrito embaixo do nome e achei uma cidade de sete mil habitantes que faliu com a prata, com a crise de 1926 e com a guerra, e que relojoeiros reconstruíram duas vezes.

17 de outubro de 20268 min

Comprei o meu Orion por causa do mostrador rosé, e só depois reparei na palavra miúda embaixo do nome da marca. Glashütte. Eu sabia que era uma cidade alemã de relógios, do jeito vago que a gente sabe que Le Brassus é suíça. Fui ler, e a história da cidade é melhor que a do relógio: Glashütte quebrou três vezes, e as duas vezes em que se levantou foram obra de relojoeiros.

Antes do relógio, vidro e prata

O nome quer dizer oficina de vidro. Havia uma ali, no vale do Müglitz, na Saxônia, e ela foi destruída em 1429 pelos hussitas. Por volta de 1490 acharam prata e o lugar virou cidade de mineração. Rendeu pouco: em uns 250 anos saíram cerca de dez toneladas de prata e 150 de cobre, e nos anos 1740 as minas já estavam em declínio.

Em 1845 Glashütte era descrita como um lugar quase sem valor. O governo da Saxônia procurava uma indústria para dar trabalho ao vale.

7 de dezembro de 1845

Quem apareceu foi Ferdinand Adolph Lange, relojoeiro de Dresden, aluno de Johann Christian Friedrich Gutkaes. Ele fundou a A. Lange & Cie em 7 de dezembro de 1845, com um empréstimo do governo real saxão. O valor aparece como 7.800 táleres em algumas fontes; a própria Lange não publica o número.

Começou com quinze aprendizes, rapazes da região que trançavam palha, e trouxe o modelo suíço de divisão do trabalho: um faz parafuso, outro faz roda, outro faz tambor, e cada aprendiz que se formava podia abrir a própria oficina fornecendo para a casa. Introduziu o sistema métrico na relojoaria em 1845 e, em 1851, ferramentas que mediam a um centésimo de milímetro. Foi prefeito de Glashütte por dezoito anos.

No começo dos anos 1860 já eram oitenta relojoeiros fazendo uns oitocentos relógios por ano. Ex-aprendizes abriram casas próprias: Julius Assmann em 1852, Moritz Grossmann, Strasser & Rohde. Em 1º de maio de 1878 abriu a Deutsche Uhrmacherschule, a escola alemã de relojoaria, com 23 alunos em duas salas, sob Grossmann; três anos depois ganhou prédio próprio para sessenta a oitenta alunos. Em 1920, o professor Alfred Helwig e seus alunos fizeram ali o primeiro turbilhão voador.

O que ficou chamado de jeito de Glashütte

Foi nesse período que a cidade criou a cara que tem até hoje. Em vez de várias pontes segurando as rodas, uma placa só cobrindo três quartos do movimento, a platina de três quartos, que aparece nos relógios de Lange a partir de 1864. Parafusos e ponteiros azulados no calor, chatons de ouro prendendo os rubis, o regulador em pescoço de cisne, a ponte do balanço gravada à mão, as listras chamadas de Glashütte no acabamento. Muita coisa disso existia em outro lugar; o que a escola fez foi ensinar a fabricar desse jeito, peça por peça, na cidade.

1926, 1945, 1951

Em 1926, com a crise, 85% da população estava desempregada. Em 1927 uma enchente do Müglitz matou pelo menos 150 pessoas. Nasceram duas fábricas grandes para dar emprego, a UROFA e a UFAG, de onde sairia a Tutima. Em 1933 a Union fechou.

Na guerra a cidade fez cronômetros de marinha e relógios de observação para a aviação, os B-Uhren de 55 mm, com o trabalho de até três mil prisioneiros em turnos de doze horas. Em 8 de maio de 1945, horas antes da rendição alemã, um bombardeio soviético destruiu as fábricas da Lange e da Tutima. Em agosto, as máquinas que sobraram foram embora como reparação de guerra: 32 caminhões de dez toneladas.

Em 1948 tudo foi nacionalizado, e em 1951 sete empresas viraram uma só, a GUB, Glashütter Uhrenbetriebe. O nome Lange saiu dos mostradores. A GUB fez relógio bom, o Spezimatic de 1964 é chamado pela própria Glashütte Original de o mais bem-sucedido já produzido na cidade, e chegou ao fim da Alemanha Oriental com cerca de três mil funcionários.

1990, o segundo resgate

O Muro caiu em 9 de novembro de 1989. Em janeiro de 1990, dois meses depois, Roland Schwertner registrou a NOMOS em Glashütte. Os primeiros relógios saíram em 1991 e 1992, desenhados por Susanne Günther: Tangente, Orion, Ludwig e Tetra, com movimento Peseux 7001 de base.

Em 16 de outubro de 1990 a GUB foi privatizada e caiu de cerca de três mil para 72 funcionários; em 1994 virou Glashütte Original, que a Swatch compraria em 2000.

E em 7 de dezembro de 1990, 145 anos depois da fundação, no mesmo dia, Walter Lange, bisneto de Ferdinand Adolph, que tinha fugido da Alemanha Oriental em 1948, registrou de novo a A. Lange & Söhne, com Günter Blümlein. Os quatro primeiros relógios da nova Lange foram apresentados em 24 de outubro de 1994, em Dresden. A frase dele sobre aquele começo: “quando começamos, em 1989, eu não tinha outro objetivo senão reviver a grande tradição da A. Lange & Söhne em Glashütte”.

Depois vieram as outras. A Mühle reabriu em 1º de abril de 1994 com dois funcionários. A Union voltou em 1996, a Tutima em 2008, e no mesmo ano Christine Hutter refundou a Moritz Grossmann e o Museu Alemão do Relógio abriu no prédio da antiga escola. Lang & Heyne em 2001, a Wempe no velho observatório em 2005.

Hoje, sete mil habitantes e dez marcas

Glashütte tem perto de sete mil habitantes e nove ou dez marcas, dependendo de como se conta: A. Lange & Söhne, Glashütte Original, NOMOS, Mühle, Union, Tutima, Moritz Grossmann, Lang & Heyne, Wempe e Bruno Söhnle.

Elas não fazem relógio do mesmo jeito, e isso eu não sabia. Lange, Glashütte Original, NOMOS, Moritz Grossmann, Lang & Heyne e Wempe fazem movimento próprio na cidade; a Glashütte Original chega a fazer a espiral. A Mühle parte de base suíça, Sellita ou ETA, e modifica à moda local, com platina de três quartos, rotor próprio e o regulador “pica-pau” que patenteou em 2003. Union e Tutima misturam calibres próprios e bases suíças. A Bruno Söhnle usa movimento suíço e diz isso com todas as letras.

O nome é protegido. Uma regra de 1930 já exigia que o relógio fosse feito ao menos essencialmente na cidade, e em 22 de fevereiro de 2022 ela virou lei federal: para levar Glashütte no mostrador, mais de 50% do valor das etapas essenciais precisa ser gerado ali, e montagem, ajuste, mostrador, ponteiros e encaixe são obrigatoriamente feitos na cidade. O Swiss Made pede 60%, mas da Suíça inteira, não de uma cidade.

NOMOS, a primeira do segundo resgate

A NOMOS tem sede na antiga estação ferroviária, fábrica na Am Erbenhang e em Schlottwitz, e estúdio de design em Berlim. Em 2005 lançou o Alpha, primeiro calibre próprio; em 2014, o swing system, o escapamento feito em casa, coisa que pouquíssimas marcas independentes fazem. Desde 2016 os movimentos saem da DUW, Deutsche Uhrenwerke, e a marca diz que até 95% do valor de cada relógio é feito em Glashütte.

Um aviso que vale para o meu e para o Junghans que contei em agosto: a NOMOS costuma ser vendida como relógio Bauhaus. A marca é membro do Deutscher Werkbund, de 1907, e diz que o Orion vem da tradição da escola de Glashütte, com mostradores que lembram o trabalho dos alunos da Uhrmacherschule. Não chamo de Bauhaus.

O meu

O meu Orion rosé, no pulso.
O meu Orion rosé, no pulso.

O Orion foi um dos quatro primeiros desenhos da NOMOS, em 1992. O meu é o rosé: 35 mm, corda manual, ponteiros e índices dourados, fundo de safira. Comprei de um revendedor autorizado no Japão, pela Chrono24, e ele entrou direto entre os mais usados. São 23 usos registrados, 8,4% da rotação, a maioria no trabalho.

Achei que fosse um relógio de ocasião, pelo tamanho e pela delicadeza. Não é o que o registro mostra: ele sai numa terça qualquer, com camisa, e volta sem cerimônia. Talvez porque, por baixo daquele mostrador rosado, o que está trabalhando é uma platina de três quartos com listras de Glashütte.

Uma cidade de seiscentos anos, com cento e oitenta de relojoaria, que quebrou três vezes e voltou pelo trabalho de quem sabia fazer relógio. No meu pulso, ela cabe em 35 milímetros.

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O que o meu registro diz sobre este relógio
23Usos registrados
8,4%Da rotação total
TrabalhoOcasião principal
5 de outubroÚltimo uso

NOMOS Glashütte Orion rosé, ref. OR1A3GR2. Dados do meu registro no Horalog, em outubro de 2026.

Isto sai de um registro de verdade.

O Horalog é o caderno de bordo que produziu todos os números destes artigos. Acesso aberto durante o beta, de graça.